Yonamine. Slumdog Art ou a arte das favelas do mundo contemporâneo.

Carla Mendes

DIPOLO, 2009 (Courtesy: Cristina Guerra Contemporary Art)

Actualmente, muito se tem debatido sobre o que significa, na verdade, uma verdadeira globalização a nível artístico e obras como as de Yonamine (1975, Angola), vêm comprovar que ainda é necessário reavaliar alguns paradigmas essenciais, reafirmando um lugar de reflexão na arte e que recupera a sua missão enquanto despertadora de consciências.

CM / Como é que tu vês esta etapa da tua representação na Bienal de São Paulo? O teu percurso conta com uma longa estadia no Brasil…

Y / Conheço minimamente bem o Brasil. Para mim, estar ali, é mesmo «uma grande cena», porque eu estive no Brasil numa fase na qual eu não acreditava no meu potencial.


CM / Qual foi a inspiração? Algum episódio particular dessa tua vivência?

Y / Quando eu era miúdo no Brasil, uma das coisas que eu gostava de fazer era soltar papagaios (o pessoal soltava bué papagaios). O papagaio tinha uma data de influências: com a favela, por exemplo, para anunciar a chegada da cocaína ou a chegada do polícia, entre outras coisas. Eu queria mostrar ao meu filho um papagaio daqueles, e quando estive lá a primeira vez para preparar a minha peça na Bienal, comprei 50 papagaios a 2,50 €. Olhei para este material e cheguei à conclusão que tinha tudo a ver com o trabalho que eu ando a preparar para São Paulo.

CM / E como é que resultou?


Y / No inicio era algo que eu fiz em computador, porque é uma ferramenta que uso derivada do meu percurso enquanto gráfico, ainda em Luanda. Eram umas listas coloridas, semelhantes às dos papagaios que comprei. Começar a fazer letras que cabiam nestas listas tais como Black Orpheu, Ubanda, símbolos de candomblé, etc . Mas achei que era muita informação e então simplifiquei, tornando-o mais gráfico e comecei a trabalhar em papel de jornal que é outro material recorrente no meu trabalho. Lembrei-me que, em Angola, o pessoal fazia os papagaios neste material, porque o papel mais fixe (palavra angolana para bom) era o de jornal, reciclando-o. Normalmente não havia cola e usava-se uma comida tradicional que é o funge (pirão confeccionado com farinha de milho ou mandioca que é usado como acompanhamento). As pessoas raspavam as panelas da papa para fazer as colagens. Neste caso, não queria estar a fazer um papagaio com jornais e com funge para representar a minha cultura. Então preferi reproduzir, várias vezes, os motivos gráficos numa parede com tintas foto fluorescentes de cores e com pretos e brancos. Claro que todo este arranjo pode mudar porque ainda não me encontro lá. Mas, em resumo, é isto: um conjunto de papagaios desmontados, tendo como banda sonora um som muito estranho de música angolana combinado com discursos de líderes africanos.

 

(Texto completo em Dardo magazine 15)

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