![]() |
![]() |
Mortes recentes da arte
Lorenzo Mammi
A idéia de que arte possa morrer e esteja morrendo remonta, como todo mundo sabe, a Hegel. Em tempos recentes, foi retomada por críticos e historiadores de tendências diferentes, e com objetivos diferentes. Todos eles, no entanto, partem de um ponto comum: que a arte dos últimos trinta anos teria provocado uma fratura irrecuperável não apenas em relação às linguagens do Modernismo, mas também em relação à história da arte como um todo.
Entre os autores que defenderam hipóteses de uma morte da arte, tentarei analisar dois, que na discussão sobre esse tema me parecem ocupar pólos opostos: Giulio Carlo Argan e Arthur Danto. De Argan, utilizarei sobretudo um breve texto: “A crise da crítica e a crise da arte”, último capítulo de Arte e crítica de Arte; outras contribuições à discussão se encontram no capítulo “A crise da arte como ciência européia”, em Arte moderna, e em vários outros textos do autor. De Danto, aproveito um livro recente, After the end of art, resultado de uma série de conferências proferidas em 1995. A esses dois autores achei útil acrescentar um ensaio de Hans Belting, historiador alemão, chamado The end of the history of art?, que, embora parta de uma questão um pouco diferente, traz elementos importantes para a discussão.
No capítulo sobre “A crise da arte e a crise da crítica”, Argan apontava a dificuldade de se fazer crítica a partir das experiências artísticas da década de 1960 e 70. O mundo da arte mudou bastante desde então, e algumas das observações de Argan hoje deveriam ser corrigidas. Contudo, as principais questões levantadas naquele texto permanecem significativas. A arte da década de 70, segundo Argan, estava se recusando à crítica, de duas formas:
Havia uma tendência artística que tentava se diluir e identificar com a vida, com a experiência do mundo, rejeitando qualquer tipo de tratamento diferenciado, qualquer sistema de valores que não fosse imediatamente ético e político – em outras palavras, essa arte exigia ser julgada pelo seu valor social ou existencial, e recusava qualquer tipo de análise formal;
Outra tendência reclamava autonomia absoluta, tornando-se ela mesma exercício crítico sobre a linguagem, prescindindo de qualquer conteúdo e, portanto, dispensando a crítica, porque a própria arte se pretendia uma crítica de grau superior -- de outra forma: essa arte se punha como uma estrutura de signos que teria seu valor em si, independente de qualquer contexto histórico ou biográfico. Era uma arte que se pretendia totalmente objetiva, no sentido que o mundo não interferiria nela. Uma crítica desse tipo de arte poderia ser apenas a construção de um outro sistema de signos com as mesmas características, igualmente independente. Portanto, não haveria diferença entre a atividade do artista e a atividade do crítico.
Nos dois casos, o papel do crítico é seriamente ameaçado. Mas a arte precisa mesmo da crítica? Ou a arte pode absorver em si a função da crítica? A noção de crise da crítica é acompanhada, em Argan, por uma noção aguda de crise da arte: tendo perdido sua ligação com o mundo do artesanato, a arte moderna se baseava em sua função crítica, quer dizer, em sua capacidade de repor constantemente em discussão seus próprios limites e, por meio deles, os hábitos visuais e lingüísticos correntes. Essa capacidade crítica, por sua vez, era baseada sobre a idéia da autonomia da arte, ou seja, a idéia de que, nos domínios da arte, esses hábitos não valiam necessariamente, tendo que ser continuamente refundados. Isso não significa que a arte simplesmente antecipasse um tipo de percepção visual que seria válida no futuro (Gombrich já observou que, se assim fosse, hoje já teríamos catálogos de supermercado cubistas). O tipo de percepção proposta pela arte é essencialmente outra, embora se relacione, por oposição ou por crítica, com a percepção corrente. Se a arte recusar qualquer tipo de relação com o mundo, ainda que negativa, ou se, ao contrário, procurar uma identificação total com o mundo, então a arte perde sua razão de ser. A crise da crítica implicaria, portanto, uma crise da relação da arte com o mundo.
Artículo de Lorenzo Mammi publicado originalmente en Dardo magazine 4.











